VISITA ÀS OBRAS - Discurso Angelo Oswaldo/Sec. Estadual da Cultura M.G. (21.12.02)
A restauração do Teatro Municipal de São João del Rei é acontecimento que deve sensibilizar a cultura brasileira. Com mais de dois séculos de existência, há cerca de cem anos tomou a forma do edifício que agora se reabre, recuperado e adaptado às modernas exigências das artes cênicas. Quatro anos atrás, pude vê-lo em triste estado de decrepitude, apesar dos esforços de Luís Dângelo e outros sanjoanenses prontos a tudo fazer pela recuperação do histórico espaço. Firmamos, ali, um pacto em favor do grande objetivo. Hoje, celebra-se o término da última etapa do restauro e requalificação planejados.
São João del Rei tem posição de destaque na história do teatro e da música em Minas Gerais. Desde os primórdios do ciclo do ouro, acordes sacros e profanos inundaram o ar do Rio das Mortes, ecoando nas naves dos templos ou percorrendo cortejos processionais, dia e noite compassando a vida individual e coletiva no arraial fundado por Tomé Portes del Rei e elevado a vila em honra do rei Dom João V. Essa tradição avança rumo ao futuro graças às atividades das orquestras bicentenárias que continuam a prover de bela música as cerimônias religiosas da cidade, bem como ao notável conservatório estadual e às bandas intensamente ativas nos rituais cívicos de uma das matrizes da política mineira.
O poeta Mário de Andrade admirou-se das linhas clássicas do Teatro Municipal, solenemente elevadas às margens plácidas do Lenheiro, dedicando-lhe versos num poema sobre a São João del Rei que visitou em 1924, na famosa caravana dos modernistas. Por certo, terá ele também apreciado o nome do simbolista Severiano de Resende inscrito no alto do frontispício. O poeta Afonso Ávila, em estudo sobre o teatro em Minas desde os tempos coloniais, encontrou o risco setecentista da primitiva edificação.
Com o tempo, o teatro de fins do século XIX perdeu o esplendor da “belle-époque”, degradou-se e alcançou o estágio lamentável de deterioração que exigia onerosa intervenção. Era preciso um programa de captação de recursos, e tudo acabou sendo feito de maneira exemplar, com o acompanhamento permanente e atento do IEPHA-MG.
A restauração efetiva teve início há três anos, sob a liderança do vereador Adenor Simões, ator e diretor de teatro eleito para a Câmara Municipal sobretudo pelo voto do meio cultural. De imediato, surgiram colaboradores decisivos, em especial entre sanjoanenses posicionados em postos estratégicos, como a direção da Usiminas, que se tornou patrocinadora do projeto, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Recursos do IEPHA-MG também concorreram para o êxito do programa.
Quando se concluiu a parte principal dos trabalhos, em dezembro último, Adenor Simões subiu ao palco para festejar a conquista. Parecia, ainda, um sonho. Ator, ele falou com a emoção do artista cênico, mas sem fingimento, porque era real a alegria que estava sentindo. E, tampouco sem fingir – o que se torna assustadoramente raro –, falou como político. Movia-o o trabalho verdadeiro pela grande meta. Estava sendo cumprida sua missão de agente político. Adenor Simões era ali o cidadão sanjoanense em plenitude, com sua veia artística e seu compromisso público, que falava em nome de uma comunidade feliz com o renascimento da herança cultural coletiva.
Seis meses depois, neste final de junho, São João del Rei acorre de novo ao Teatro Municipal para aplaudir o “grand-finale” da reabilitação da velha casa da ópera. A cidade ganha uma das melhores salas de espetáculo do Estado, em condições de acolher variadas produções cênicas. E, mais uma vez, Adenor Simões subirá ao palco para, como ator e vereador, dizer que valeu a pena acreditar na força da arte e na alma de São João del Rei.